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    18.Ago - Comunicar o Humano e Humanizar a Comunicação

    Robson Santarém - Consultor, Palestrante, Professor e Escritor


    Vivemos tempos difíceis e desafiadores. Estimula-se o individualismo, a competição, o consumismo exacerbado e cresce entre nós a intolerância e a incompreensão, mesmo sabendo dos milhões de refugiados, desempregados e empobrecidos por um sistema que exclui e descarta pessoas como se descarta lixo. O drama é maior quando enfrentamos uma inédita e terrível pandemia que afeta milhões de famílias.


    Há um dilaceramento nas relações humanas que se revela nas famílias destruídas, nos grupos que facilmente se desfazem e nos inúmeros conflitos existentes nos diversos tipos de organizações onde atuamos, decorrentes, em grande parte, do afastamento dos valores humanos essenciais e, logo, da incapacidade das pessoas se relacionarem bem.


    Queremos um mundo mais humano, no entanto, estamos trilhando o caminho errado: embora se proclame o valor do respeito, do amor, da solidariedade, da honestidade, da ética enfim, constatamos no dia a dia que as contradições são gritantes e a Sombra individual e coletiva emerge dando a parecer que é superior à Luz.


    Nesse cenário com tantos desafios a serem superados importa investirmos diuturnamente na educação em valores humanos em todos os espaços: família, instituições de ensino, igrejas e organizações empresariais e sociais. Creio que somente uma revisão do nosso modelo mental e esforço para vivermos de modo coerente com os valores possibilitará uma nova ordem e vida digna para todos.


    Nesse sentido, os ensinamentos das tradições espirituais podem provocar a metanoia necessária nos arraigados modelos mentais que insistem em nos fragmentar, dividir e em provocar uma competição perversa e nos ajudem a trilhar o caminho do diálogo genuíno, que implica na escuta sensível e empática, no respeito e acolhimento do diferente e na atitude de eterno aprendiz.


    A sabedoria acumulada durante milênios por tantos povos e culturas oferece caminhos e soluções para os graves problemas que humanidade hoje enfrenta. Considerando que há uma grande convergência em todas as tradições espirituais e na racionalidade humana, o diálogo entre os seus seguidores que bebem em suas fontes pode facilitar sinalizando práticas de superação de tudo aquilo que nos divide e de tudo que pode contribuir para construir uma sociedade fraterna.


    Como diz Hans Kung:


    Sem um mínimo de consenso fundamental com respeito a valores, normas e posturas não é possível a existência de uma comunhão maior nem uma convivência humana digna. Sem tal consenso fundamental, que deve ser achado sempre de novo no diálogo, também uma democracia não pode funcionar. (...) Para a vida humana é fundamental estar ligado a uma direção de vida, a valores de vida, a normas de vida, a posturas de vida, a um sentido de vida – e isso, se não me engano, de uma forma transnacional e transcultural.


    É inquestionável que a necessidade de diálogo, da interação respeitosa, da cooperação, de relacionamento e vida em comunidade é inerente ao humano. Afinal somos seres relacionais, gregários. Por isso insisto em afirmar que não nascemos humanos, nós nos tornamos humanos, como diz a filosofia Ubuntu: “eu sou porque nós somos”. Precisamos do outro para ser quem somos. Somente a relação, o diálogo e a solidariedade nos humanizam.


    Como diz Edgar Morin, sejamos irmãos porque estamos perdidos. Porque


    Quanto mais tomamos consciência de que estamos perdidos no universo e mergulhado numa aventura desconhecida, mas temos necessidade de nos religarmos com os nossos irmãos e irmãs da humanidade. [...] A responsabilidade contudo necessita ser irrigada pelo sentimento de solidariedade, ou seja, de pertencimento a uma comunidade. Devemos assumir simultaneamente a responsabilidade por nossa vida (não deixar que forças ou mecanismos anônimos dirijam nosso destino) e em relação aos outros. (O método. Ética)


     Não é diferente do que afirma o Papa Francisco na Encíclica Fratelli tutti:


    Precisamos de fazer crescer a consciência de que, hoje, ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. (137) Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. Exigem a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade. Todo e qualquer esforço nesta linha torna-se um exercício alto da caridade. Com efeito, um indivíduo pode ajudar uma pessoa necessitada, mas, quando se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos, entra no «campo da caridade mais ampla, a caridade política» Trata-se de avançar para uma ordem social e política, cuja alma seja a caridade social. Convido uma vez mais a revalorizar a política, que «é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum» (180)


    As crenças das pessoas podem ser diferentes, as suas culturas podem ser diferentes, suas origens e até mesmo os idiomas podem ser diferentes e ininteligíveis, mas enquanto houver disposição e abertura mútuas, atitudes de acolhimento, respeito e escuta sensível aí acontecerá o milagre do encontro, aí a relação se tornará dialógica e luminosa, porque efetivamente os indivíduos se compreenderam e se tornaram melhores como seres humanos. Esse encontro, esse relacionamento é mais que humano, é espiritual.


    Somente o diálogo possibilita a concretização de uma sociedade melhor que, necessariamente, começa na família e deve prosseguir nas organizações civis e religiosas e em todas as instituições, para que, unindo forças, busquemos a justiça social e o bem comum que são a aspiração de todos. É preciso entender que o ser humano deve estar no centro de tudo, que ele é o fim e não um recurso e que a empresa e a economia são apenas instrumentos a serviço desse ser humano e do planeta – a casa criada por Deus para que nela os seres humanos evoluam e vivam a vida em plenitude.


    O diálogo exige escuta, acolhimento, compreensão, tolerância e respeito ao outro, ainda que haja divergência, o que é saudável. É com essa prática - tão exigente -, que possibilita ao indivíduo desenvolver valores essenciais e se humanizar. Como tornar-se humano se não for pela via do diálogo? Como tornarmo-nos humanos se não assumirmos as próprias fragilidades e nos abrirmos ao outro na busca da convivência harmoniosa? Isso não significa renunciar às convicções, mas jamais fazer delas o muro que separa ou a arma que fere o outro. Por isso, penso que o primeiro diálogo é o interior para escutar a si mesmo e checar se os pensamentos e sentimentos expressos em palavras, gestos e comportamentos estão coerentes com os valores humanos que conduzem o respeito à dignidade humana e ao bem comum. Se não soubermos cultivar esse diálogo silencioso, corremos o risco de praticarmos mais monólogos e discussões em nossos relacionamentos.


    Fonte: Vatican News

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